Muitas iniciativas de IA falham porque já partem de escolhas erradas.
Projetos muito amplos.
Pilotos que nunca chegam à produção.
Ideias que empolgam apresentações, mas não entregam resultado.
Empresas que constroem jornadas de sucesso em IA costumam escolher bem os casos de uso que devem atacar. O segredo é encontrar, dentro de todas as opções, as iniciativas que chamo de casos de uso estrela, que são brilhantes em aspectos extremamente importantes:
Gerar valor real para o negócio
Ser viável tecnicamente agora
Entregar resultado em semanas ou poucos meses
Criar confiança, patrocínio executivo e momento
Nesta edição, compartilho um framework simples e prático para identificar onde e quais são essas iniciativas, podendo ser aplicado por qualquer empresa, de qualquer setor e tamanho.
O que são os “casos de uso estrela”?
Iniciativas que encontram um ponto de equilíbrio perfeito entre quatro dimensões:
1) São estratégicos
Conectam-se diretamente a objetivos de negócio e entregam valor estratégico, endereçando processos e entregas que estão diretamente relacionados ao que é considerado core do negócio. Deve ser visto como uma entrega transformadora e capaz de mudar o jogo para o negócio como um todo, ao invés de uma melhoria incremental ou otimização pontual.
Em geral, são iniciativas que entregam resultados perceptíveis e valorizados pela alta liderança.
2) São urgentes e resolvem um problema crítico
Precisam endereçar dores que são realmente urgentes, que existe pressão para que sejam resolvidas e com as quais as pessoas se importam. Afinal, precisam justificar o investimento de tempo e do dinheiro que poderiam ser direcionados para outras coisas.
Se não fizer agora, alguém paga a conta.
3) São de alto impacto
Precisam ser encaradas de forma pragmática, onde o objetivo comum ao negócio é conseguir analisar o impacto em ambiente produtivo o quanto antes, sendo testada e validada por usuários reais para coletar feedback e permitir uma decisão informada sobre evoluir ou abandonar.
Não são poucas as iniciativas que consomem muito tempo e esforço em provas de conceito e protótipos bastante elaborados, mas que morrem sem nunca ter sido utilizada de fato.
4) Viáveis em semanas ou poucos meses
Os casos de uso estrela não são apenas tecnicamente viáveis, mas também possíveis de serem entregues em um prazo de até 3 meses. Essas iniciativas precisam de agilidade, ainda que isso signifique quebrar iniciativas maiores em iniciativas menores e interdependentes.
Essa abordagem permite construir uma cultura de entregar valor constantemente, criando um ciclo virtuoso e gerando credibilidade e momento com a liderança e os usuários.
Curiosidade: Quando começamos a trabalhar em uma estratégia de assessment para entender e priorizar as iniciativas de IA de clientes, decidimos entregar os resultados finais com a representação de um mapa estratégico onde posicionamos todos os casos de uso desejados de acordo com suas características (pontos fortes e fracos), destacando os que deveriam ser priorizados com estrelas. Por isso o nome.
Encontrando os “casos de uso estrela”
Passo 1: Listar possíveis iniciativas
Uma das primeiras coisas que devemos fazer é listar a maior quantidade de opções possíveis de iniciativas desejadas. Neste primeiro passo, ainda não estamos interessados em analisar o quão boa ou relevante é cada um dos casos de uso listados, mas sim garantir que a lista seja o mais completa possível e que atenda o máximo de árias possíveis.
Ao final dessa etapa, teremos uma lista (extensa) de candidatos.
Passo 2: Detalhar cada iniciativa listada
Nesta etapa, é importante entender cada um dos possíveis casos de uso de forma clara e evitando qualquer ambiguidade. Para cada item da lista de candidatos, precisamos definir:
Quem são os Stakeholders?
Onde estão as informações necessárias (fontes de dados)?
Como obter as informações necessárias (integrações)?
Necessidade de requisitos específicos de segurança ou privacidade?
Qual o volume / quantidade de informação?
Quais as principais dores e os possíveis ganhos?
Como medir a qualidade dos resultados?
Qual a definição de sucesso?
Passo 3: Encontrar as iniciativas ideais
Um bom teste de validação sobre o quanto cada iniciativa se aproxima de um “caso de uso estrela” é através das 4 perguntas abaixo. Na grande maioria das vezes as respostas servirão não só para identificar, mas também priorizar os casos de uso estrela.
Pergunta 1: Isso é estratégico para o negócio?
Se o projeto der certo, a alta liderança se importa?
O foco da iniciativa está alinhado com os valores e desafios da empresa a ponto de um resultado positivo ser apresentado em uma reunião de C-Level, Diretores ou Board?
Pergunta 2: O impacto é mensurável e relevante?
É possível responder claramente:
Quanto aumenta a receita?
Quanto economiza?
Quanto acelera?
Quanto reduz risco?
Quanto melhora a qualidade?
Se não dá pra medir, não escala.
Pergunta 3: Existe urgência real?
Quantas e quais áreas dentro da empresa estão realmente sofrendo com este problema? Precisamos ter certeza que as iniciativas ideais resolvem problemas e dores atuais, não apenas visões de futuro.
Pergunta 4: É possível entregar am algumas semanas ou poucos meses?
Dados, tecnologia, processos e pessoas permitem validar com agilidade e sair do piloto rápido?
Se depender de “reorganizar tudo”, não é um caso de uso estrela.
Outros tipos de iniciativas
Algumas iniciativas podem ser importantes e relevantes, mas não considero ideais para priorizar no início da jornada. Também é fácil identificar e classificar cada uma delas na lista de iniciativas desejadas:
Moonshots - Grandes apostas que empolgam a liderança, mas que ainda não possuem um caminho claro de ROI, resultando em projetos longos, caros e com alto grau de incertezas;
Investimentos Futuros - Boas idéias, mas que podem esperar. Geralmente não possuem a urgência necessária para ser considerado um caso de uso estrela e, se priorizados, acabam consumindo energia sem criar momento de crescimento;
Projetos Táticos - Costumam ser urgentes e apagar incêndios, mas dificilmente mudam o jogo. Por serem importantes, mas não estratégicos, fazem com que resultados positivos sejam percebido pelos que estão próximos, mas não pela alta liderança;
Quick Wins - Em geral são iniciativas muito úteis para gerar aprendizado e maior vivência com as tecnologias envolvidas, mas não são capazes de transformar. Caso não sejam realmente rápidos de implementar, testar e aprender, acabam vendo o entusiasmo inicial se apagando rapidamente;
Visionários - Costumam ser empolgantes e estratégicos, mas a tecnologia disponível ainda não está pronta pra entregar os resultados desejados. São iniciativas da alto risco, pois podem gerar uma frustração inicial com IA e se transformar em uma decepção difícil de reverter.
A lógica vencedora: Momento antes de Escala
Jornadas de sucesso costumam seguir um padrão claro:
Começam com casos de uso estrela
Entregam valor rápido
Criam confiança interna
Evoluem para projetos mais complexos
Escalam com governança e ROI
IA que Funciona começa pelas escolhas certas e não é sobre o “maior projeto”, mas sim o projeto certo, na hora certa.
Comece pelos casos de uso estrela.
Não são os mais fáceis e nem os mais ambiciosos, mas são os mais inteligentes.

